Ataques
Os 8 principais vazamentos de dados no setor financeiro

Redatora e editora
9 min
Vazamentos de dados são incidentes de segurança nos quais indivíduos não autorizados acessam informações protegidas. Eles podem ocorrer por diversos motivos, incluindo ataques cibernéticos maliciosos, procedimentos de segurança inadequados ou falhas técnicas. Ao escolherem seus alvos, os agentes maliciosos buscam o maior impacto e o máximo de lucro. Eles encontram ambos no setor financeiro — e sabem disso. No ano passado, o setor financeiro foi o mais atingido por vazamentos de dados, superando os setores de saúde e de serviços profissionais.
Por mais constrangedor ou prejudicial que seja para a reputação de uma empresa, é valioso que outras organizações — independentemente do setor — compreendam como essas instituições financeiras foram afetadas por vazamentos de dados e quais lições podem ser extraídas dessas experiências. Por isso, elaboramos uma lista com os 8 maiores vazamentos de dados no setor financeiro, abrangendo bancos, fintechs e agências de informações de crédito de diferentes países. A classificação baseia-se no volume de dados comprometidos. Incluímos a causa, o impacto e as lições aprendidas, com o objetivo de oferecer o máximo de conhecimento possível a partir desses casos, para que os erros cometidos por essas empresas não se repitam na sua organização.
Como o número de vazamentos de dados relatados no setor de serviços financeiros atingiu um patamar recorde em 2023, gostaríamos de destacar um desses incidentes antes de apresentarmos os 8 maiores de todos os tempos. Esse caso afetou um número expressivo de clientes de bancos renomados e bem estabelecidos. Vamos entender melhor o que aconteceu.
O maior vazamento de dados de 2023
Em 2023, o maior vazamento de dados enfrentado por uma instituição financeira ocorreu na agência de cobrança de dívidas NCB Management Services. A empresa foi alvo de um ataque de invasão e exfiltração de dados que aparentemente terminou com o pagamento de um resgate. Ainda assim, as informações de aproximadamente 1,1 milhão de pessoas foram comprometidas. Clientes de instituições como Bank of America e Capital One, entre outras, tiveram dados como endereço, número de Segurança Social (SSN), número de conta bancária e situação da conta vazados durante o ataque à NCB. A agência de cobrança, sediada nos Estados Unidos, só tomou conhecimento da violação três dias após o ocorrido. Posteriormente, a empresa enviou comunicados formais às potenciais vítimas notificando que invasores haviam violado seus perímetros operacionais. Nas cartas, a NCB assegurou que os invasores já haviam sido bloqueados de seus sistemas e que não havia indícios de que as informações acessadas estivessem sendo distribuídas ou utilizadas com fins maliciosos.
A NCB não divulgou detalhes aprofundados sobre a natureza exata do ataque. Entretanto, uma ação coletiva foi protocolada pouco tempo depois da revelação pública do incidente. A denúncia apontava que a rede interna da NCB não utilizava criptografia e podia ser acessada sem a exigência de senhas ou autenticação multifator (MFA). A ação afirma ainda que "a empresa poderia ter evitado o incidente caso tivesse adotado salvaguardas razoáveis de segurança cibernética ou simplesmente eliminado os dados". Uma fonte interna anônima revelou que a agência de cobrança sabia da existência dessas vulnerabilidades em seu ambiente, mas não tomou providências para mitigá-las. O processo judicial permanece em tramitação.
Principais vazamentos de dados no setor financeiro
8 - Robinhood - Engenharia social
Quando ocorreu o vazamento? Novembro de 2021.
O que causou o vazamento? Por meio de técnicas de engenharia social, atores maliciosos ludibriaram um funcionário da equipe de suporte ao cliente para obter credenciais de acesso a determinados sistemas internos de atendimento.
Quantos clientes foram afetados? Aproximadamente 7 milhões de usuários.
Qual foi o impacto? A brecha vivenciada pela plataforma de investimentos expôs os endereços de e-mail de cerca de 5 milhões de usuários e nomes completos de outros 2 milhões. No caso de aproximadamente 310 usuários, dados complementares como data de nascimento e código postal (CEP) foram expostos. Para cerca de 10 clientes, dados muito mais extensos e detalhados foram acessados.
O que se pode aprender? Este incidente com esse vetor tático ressalta a relevância inegociável de treinamentos aprofundados para colaboradores, capazes de acompanhar a constante sofisticação dos golpes cibernéticos. A Robinhood comunicou seus usuários de forma ágil e transparente, detalhando o volume de registros comprometidos e as providências emergenciais de contenção adotadas. Essa é uma lição fundamental: transparência e agilidade na resposta. A fintech também distribuiu recomendações práticas aos clientes para resguardar suas contas e informações cadastrais.
7 - Korea Credit Bureau - Ameaça interna
Quando ocorreu o vazamento? Entre dezembro de 2012 e dezembro de 2013; identificado no início de 2014.
O que causou o vazamento? Tratou-se de uma ameaça interna (insider threat). O autor do crime foi um funcionário da própria empresa Korea Credit Bureau (KCB). Ele foi formalmente denunciado e detido por furtar cadastros de clientes pertencentes a três grandes emissoras de cartões de crédito enquanto prestava serviços como consultor terceirizado. O indivíduo copiou sistematicamente dados confidenciais para dispositivos de armazenamento externos ao longo de vários meses. As informações subtraídas foram comercializadas para empresas de publicidade e marketing, cujos executivos também foram detidos após o estouro do caso.
Quantos clientes foram afetados? Ao menos 20 milhões de correntistas e usuários de cartões de crédito — o equivalente a cerca de 40% da população sul-coreana.
Qual foi o impacto? A violação sofrida por essa agência de análise e classificação de risco financeiro expôs números de identidade (equivalente ao SSN), nomes, telefones, endereços residenciais, além de numerações e datas de validade de cartões. A Suprema Corte da Coreia do Sul condenou a KCB a pagar 62,3 bilhões de wons (cerca de 48 milhões de dólares) em indenizações às vítimas, acrescidos de compensações por danos morais e materiais decorrentes do atraso. Após ação judicial movida em 2015, as vítimas foram ressarcidas pelas três administradoras de cartões quando se comprovou que a recuperação dos registros roubados era inviável.
O que se pode aprender? O fato de os dados não estarem criptografados viabilizou a extração facilitada das informações, evidenciando que a criptografia de dados em repouso é basilar para proteger cadastros críticos. O episódio da KCB é um alerta severo sobre o perigo e o impacto das ameaças internas. Políticas rigorosas de privilégio mínimo vinculadas a um modelo Zero Trust poderiam ter barrado o acesso indevido às bases.
6 - Experian - Engenharia social avançada
Quando ocorreu o vazamento? Entre maio e agosto de 2020.
O que causou o vazamento? Um atacante fazendo-se passar pelo representante oficial de uma empresa cliente legítima enganou um analista da Experian para que este lhe fornecesse cadastros sigilosos. A ação consistiu em uma manipulação altamente qualificada, visto que o fraudador forneceu com exatidão todas as informações e credenciais de verificação institucional que a própria Experian exigia para autenticar clientes corporativos.
Quantos clientes foram afetados? Aproximadamente 24 milhões de cidadãos e cerca de 800 mil pessoas jurídicas.
Qual foi o impacto? Restrita à operação da África do Sul, a violação dessa agência de proteção ao crédito expôs nomes, números de identidade civil, meios de contato, endereços residenciais e dados de histórico trabalhista (cargos, empresas e períodos de admissão). Embora a Experian tenha sustentado publicamente ter recuperado o acervo, um grande arquivo com as informações vazadas foi posteriormente localizado no serviço de compartilhamento WeSendIt.
O que se pode aprender? O caso ratifica a necessidade vital de desenhar processos de validação de clientes com múltiplos fatores de checagem. Destaca também a premência de capacitar equipes contra ardis contemporâneos de engenharia social, visto que o elemento humano é recorrentemente o alvo preferencial de investidas externas.
5 - CardSystems Solutions, Inc. - Exploração de vulnerabilidade
Quando ocorreu o vazamento? Junho de 2005.
O que causou o vazamento? Invasores penetraram o perímetro de rede da CardSystems explorando falhas estruturais de segurança para alcançar servidores internos. Os cibercriminosos instalaram malwares capazes de interceptar e armazenar dados de transações com cartões de crédito em tempo real. À época, a empresa atendia a uma carteira de mais de 100 mil estabelecimentos comerciais e processava mais de 15 bilhões de dólares em transações por ano.
Quantos clientes foram afetados? Mais de 40 milhões de titulares de cartões de pagamento.
Qual foi o impacto? A brecha desse processador terceirizado expôs nomes, agências, números de conta, numerações completas de cartões de crédito, datas de validade e códigos de segurança (CVV). O vazamento atingiu predominantemente portadores da bandeira MasterCard, estendendo-se também a usuários de Visa e American Express. Inúmeros clientes sofreram transações fraudulentas diretas. A CardSystems sofreu pesadas sanções regulatórias, processos civis e o desmoronamento de suas operações no setor, uma vez que Visa e MasterCard rescindiram os credenciamentos com a operadora. O episódio foi classificado à época como a mais crítica falha de segurança dos EUA, precipitando uma transformação em toda a indústria de meios de pagamento.
O que se aprendeu? As averiguações técnicas constataram que a CardSystems operava em flagrante desconformidade com os padrões de segurança normativos da indústria de cartões. Caso as exigências fossem rigorosamente cumpridas, a intrusão não teria se concretizado. O acontecimento impulsionou exigências regulatórias mandatórias para segurança de dados corporativos. Discutimos anteriormente os pilares da conformidade e da proteção estrutural de dados em uma de nossas publicações.
4 - JPMorgan Chase - Exploração de vulnerabilidade
Quando ocorreu o vazamento? Identificado em julho de 2014; início das incursões em junho de 2014. Divulgado oficialmente em outubro de 2014.
O que causou o vazamento? Invasores exploraram falhas em aplicações web mantidas pelo JPMorgan Chase, especificamente valendo-se de uma vulnerabilidade de dia zero (zero-day), para penetrar servidores que abrigavam dados de correntistas. A falha central de segurança decorreu da existência de um único servidor institucional que não havia recebido a atualização obrigatória de autenticação em dois fatores (2FA).
Quantos clientes foram afetados? Cerca de 83 milhões de registros (76 milhões de pessoas físicas e 7 milhões de pequenas empresas).
Qual foi o impacto? O incidente comprometeu nomes, e-mails corporativos e pessoais, telefones de contato e endereços postais. As auditorias internas do conglomerado atestaram que dados de alta sensibilidade, tais como números de Seguro Social ou senhas bancárias de acesso online, não chegaram a ser interceptados; mesmo assim, o comprometimento de cadastros abriu margem considerável para golpes subsequentes de phishing e fraudes de identidade.
O que se aprendeu? A ocorrência ressalta a importância de governança rigorosa em gestão e varredura de vulnerabilidades em ativos tecnológicos. Mesmo com o banco reportando investimentos na ordem de 250 milhões de dólares ao ano em cibersegurança, a negligência de um único nó desprovido de 2FA viabilizou o acesso invasivo. Uma rotina de aplicação sistemática de patches e atualização é indispensável. Como já apontamos em artigos anteriores, a arquitetura deve priorizar segurança nativa. Ponto positivo a ser registrado: a segregação e segmentação da rede interna do banco impediu a progressão do adversário até os bancos de dados monetários, contendo drasticamente a gravidade do incidente.
3 - Capital One - Controles de acesso frágeis
Quando ocorreu o vazamento? Março de 2019.
O que causou o vazamento? Uma ex-analista da infraestrutura da Amazon Web Services (AWS) conseguiu transpor a camada de proteção do ambiente de armazenamento em nuvem da Capital One fazendo uso de credenciais não autorizadas. Aproveitando seu conhecimento técnico prévio da plataforma da AWS, a autora explorou um firewall com regras de configuração incorretas em funcionamento naquela infraestrutura.
Quantos clientes foram afetados? Aproximadamente 100 milhões de residentes nos Estados Unidos e cerca de 6 milhões no Canadá.
Qual foi o impacto? A violação comprometeu números de Seguridade Social e contas correntes nos EUA, acompanhados de datas de nascimento, endereços, números de contato, saldos contábeis, históricos de transação e classificações de pontuação de crédito (credit scores). A agressora foi julgada e condenada criminalmente por invasão de dispositivo e fraude eletrônica. A Capital One foi multada pelos órgãos de regulação em 80 milhões de dólares e celebrou acordo de ressarcimento de 190 milhões de dólares voltado aos consumidores lesados.
O que se aprendeu? A ocorrência comprova a urgência de estabelecer parâmetros severos de gestão de identidade e controle de acesso a acervos com dados sensíveis. O monitoramento contínuo de configurações na nuvem é indispensável, sendo potencializado por auditorias permanentes. Outro gargalo crucial foi a regra falha de segurança no firewall corporativo, que abriu a janela de exploração. Escaneamentos periódicos e simulações regulares de intrusão são indispensáveis para homologar e assegurar a resiliência das ferramentas de proteção de perímetro.
2 - Heartland Payment Systems - Injeção de SQL
Quando ocorreu o vazamento? Final de 2008; verificado e comunicado ao mercado em janeiro de 2009.
O que causou o vazamento? Agentes hostis recorreram a uma abordagem mista: exploraram uma vulnerabilidade de injeção de SQL (SQLi) acoplada à injeção de código executável malicioso por meio de um formulário público no site da própria Heartland. Uma vez estabelecida a ponte na rede corporativa, implantaram softwares espiões direcionados a interceptar em tempo real os pacotes de dados das transações de cartões enquanto viajavam pela rede.
Quantos clientes foram afetados? Estima-se 130 milhões de pessoas.
Qual foi o impacto? A empresa, atuante no ecossistema de infraestrutura de processamento de meios eletrônicos, teve expostos números inteiros de cartões de débito e crédito, nomes gravados nas tarjas, prazos de validade e códigos verificadores criptográficos.
O que se aprendeu? A experiência evidencia a premência de defesas profundas: testes contínuos de código com correção dinâmica de falhas, adoção de mecanismos internos de controle de fluxo e criptografia obrigatória das mensagens de dados financeiros em trânsito. A Heartland implementou amplas revisões de seus ambientes para bloquear brechas remanescentes e erradicou os malwares e as portas dos fundos (backdoors) mantidas pelos invasores.
1 - Equifax - Ataque à cadeia de suprimentos de software
Quando ocorreu o vazamento? Comunicado publicamente em setembro de 2017; a violação teve início em março de 2017 e persistiu de maneira indetectada até o mês de julho daquele mesmo ano.
O que causou o vazamento? A instituição foi invadida a partir da exploração direta de uma vulnerabilidade no sistema online de registro de reclamações de consumidores. A falha técnica (registrada como CVE-2017-5638) residia no Apache Struts, uma plataforma de código aberto muito utilizada na construção de portais corporativos sob Java. A Equifax negligenciou a aplicação tempestiva do patch de segurança, o qual havia sido disponibilizado pela comunidade desenvolvedora cerca de seis meses antes do ataque. O aplicativo desprotegido serviu de ponte de acesso a um banco de dados que mantinha nomes de usuário e senhas armazenados em texto claro (sem criptografia), viabilizando que os agressores navegassem pelas estruturas mais profundas do datacenter.
Quantos clientes foram afetados? Aproximadamente 147 milhões de consumidores.
Qual foi o impacto? O incidente na agência de classificação de crédito comprometeu nomes, datas de nascimento, números de Segurança Social, carteiras de habilitação e registros de cartões de crédito. A ausência de segmentação de redes internas permitiu que invasores navegassem lateralmente sem resistência, alcançando credenciais administrativas desprotegidas e perpetuando acessos ilícitos contínuos sem levantar alarmes. A Federal Trade Commission (FTC) condenou a Equifax ao pagamento de multas e reparações que somaram cerca de 700 milhões de dólares por falhas elementares e inaceitáveis no dever de proteção dos dados sob sua custódia.
O que se aprendeu? O parecer regulatório da FTC foi taxativo: práticas operacionais básicas e consolidadas teriam blindado o ecossistema e impedido o vazamento por completo. A primeira medida básica consistia em manter repositórios atualizados e mapear ativamente alertas sobre componentes e bibliotecas de código de terceiros. A segurança na cadeia de suprimentos de software torna-se mandatória e inegociável quando o ecossistema depende de pacotes abertos. Já exploramos esse tema em outra postagem técnica. Outro descuido fatal foi a falta de criptografia generalizada em senhas de serviço e dados sensíveis em repouso. O quadro também acentua a importância de impor modelos seguros de autenticação e garantir segmentação lógica e física estrita de rede para eliminar o risco de movimentação lateral.
Compreender com clareza o histórico dessas vulnerabilidades permite às corporações articular posturas defensivas muito mais eficazes contra brechas corporativas. Isso requer a obrigatoriedade de senhas robustas, a implantação emergencial de correções de bugs de segurança, o enrijecimento dos critérios de permissão e acesso, a conscientização continuada de colaboradores em segurança da informação e a manutenção de planos operacionais estruturados de resposta a incidentes.
Fluid Attacks no combate a violações e vazamentos de dados
Todas essas violações de grande escala, deflagradas por agentes maliciosos, deixam patente que o ecossistema digital oferece variados caminhos de infiltração quando encontra práticas negligentes. Vale destacar uma constatação essencial: os cinco maiores vazamentos da lista decorreram diretamente de vulnerabilidades de software. É justamente por isso que a equipe da Fluid Attacks recomenda enfaticamente auditorias contínuas de segurança, unindo o dinamismo de ferramentas automatizadas com a precisão investigativa de especialistas em testes de intrusão (pentest).
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