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Qual foi o primeiro ataque cibernético? Os irmãos Blanc e a rede de telégrafos Chappe


Redator e editor de conteúdo
5 min
Se você digitar no Google "Quantos ciberataques acontecem por dia em 2022?", um dos primeiros resultados pode dizer algo como: "A cada 39 segundos, há um novo ataque em algum lugar da web". No entanto, descobri que esse número foi mencionado em um estudo da Escola de Engenharia A. James Clark em 2007! Atualmente, esse número deve ser bem diferente. Na verdade, vi que a Cybersecurity Ventures estimou em 2019 um ataque de ransomware a uma empresa a cada 11 segundos até o final do ano passado. Leia com atenção: apenas esse tipo de ataque e somente contra organizações ou empresas. Você já pode tentar imaginar a dimensão desproporcional do problema, o que nos leva à pergunta: Como tudo isso começou?
Responder a essa pergunta, acredite ou não, não nos leva aos primeiros dias das redes de computadores. De acordo com Tom Standage na revista 1843, temos que voltar à primeira metade do século XIX. O primeiro "ciberataque" foi perpetrado na França em uma rede de telecomunicações, especificamente em um sistema de telégrafo mecânico. E embora o prefixo ciber- denote uma relação com redes de computadores, a abordagem de Standage pode ser bastante válida porque se refere a uma tentativa de roubar informações controladas de uma rede de sistemas de informação, precisamente "a primeira rede nacional de dados do mundo". Isso é muito semelhante ao que acontece hoje, embora estejamos falando de uma tecnologia diferente e os ciberataques atuais vão além do roubo de informações. Vamos colocar esse ataque pioneiro em contexto
Seguindo a definição da Encyclopaedia Britannica, um telégrafo é "qualquer dispositivo ou sistema que permite a transmissão de informações por meio de sinais codificados à distância". Esse termo é geralmente usado para se referir ao telégrafo elétrico, desenvolvido no século XIX. No entanto, foi usado inicialmente para descrever a versão pré-elétrica no final do século XVIII. Em 1791-1792, o inventor francês Claude Chappe,, com a ajuda de seu irmão Ignace, desenvolveu um sistema de telégrafo visual ou semáforo óptico muito bem-sucedido. "Esse sistema consistia em pares de braços móveis montados nas extremidades de uma viga transversal sobre torres no topo de colinas". Tanto a viga transversal quanto os braços podiam variar seus ângulos de posição para representar números e letras (veja a imagem abaixo).

O telégrafo de Chappe e algumas configurações (duas imagens [1, 2] retiradas da Wikipédia).
Naquela época, como afirma Stefano Selleri, da Universidade de Florença, as redes de comunicação dos estados centralizados eram predominantemente "redes postais, com a troca de mensagens escritas na velocidade máxima tecnologicamente disponível: pombos e cavalos". Contudo, com a invenção do já mencionado telégrafo visual, outro tipo de rede pôde ser estabelecido. Nesse caso, as mensagens eram transmitidas por meio de cadeias de torres. Segundo relatos, essas torres ficavam a uma distância de 3 a 6 milhas (5 a 10 km, ou até mais) umas das outras, e com elas os operadores conseguiam atingir uma taxa de transmissão de cerca de três símbolos por minuto. Tornou-se possível, então, falar de uma rede de telecomunicações (ao menos uma moderna, superando o antigo uso de fogueiras e fachos para mensagens elementares), pois já não se transportavam objetos físicos, mas apenas informação.
Cada mensagem podia percorrer a rede de maneira direta. Por meio de um telescópio, os operadores de telégrafo observavam o que uma das torres adjacentes estava transmitindo. Em seguida, ajustavam os elementos de seus sistemas para corresponder às configurações compartilhadas. Inicialmente, Chappe definiu 256 configurações possíveis, mas, ao notar dificuldades no reconhecimento delas, acabou reduzindo-as para 92. Mais tarde, publicou o primeiro manual contendo 8.464 " mensagens que podiam ser transmitidas, obtidas pela combinação de símbolos individuais". Dessa forma, a França alcançou uma comunicação mais rápida — de uma ponta a outra — do que aquela feita por meio de cartas. Agora, bastavam apenas alguns minutos!
A linha Paris-Lille, que contava com 18 torres ao longo de uma extensão de 190 km, foi a primeira a ser inaugurada oficialmente em 1794. A partir de então, a expansão da rede foi praticamente inexorável, alcançando inclusive países como Bélgica e Itália, e seu uso permaneceu restrito exclusivamente aos governos. Quatro décadas após a inauguração, em 1834, outra dupla de irmãos começou a ganhar destaque nessa sequência de eventos. Eram os banqueiros François e Joseph Blanc, que buscavam tirar proveito da rede francesa de telégrafos ópticos.
Os Blanc negociavam títulos públicos na bolsa de Bordeaux, "onde as informações sobre as oscilações do mercado demoravam vários dias para chegar de Paris por carruagem dos correios". Saber antecipadamente se o mercado estava em alta ou em baixa concedia uma tremenda vantagem aos operadores, dispensando adivinhações. Diferente do que muitos já haviam tentado, os irmãos Blanc buscaram um método dissimulado para serem os primeiros em Bordeaux a conseguir essas informações. Por isso, resolveram "hackear" a rede de telégrafos.
Segundo Paul Ducklin , da Naked Security, parte da segurança dessa rede dependia da obscuridade. Os operadores de telégrafo comuns não recebiam informações sobre o significado das configurações das torres, exceto daquelas usadas para "correção de erros e controle de fluxo". Assim, um símbolo de "backspace" (retrocesso) indicava a quem transcrevia a mensagem que o caractere anterior deveria ser ignorado. A transcrição era realizada em determinadas torres que funcionavam como centros de armazenamento. Nelas, definia-se qual rota a mensagem deveria seguir em seu encaminhamento. As informações que viajavam de Paris a Bordeaux, por exemplo, precisavam passar por um desses centros na cidade de Tours (veja a imagem abaixo).

Paris-Tours, 200 km; Tours-Bordeaux, 300 km (extraído do Naked Security).
Consequentemente, o que os irmãos Blanc fizeram foi subornar um dos operadores em Tours para inserir a partir dali um caractere espúrio — seus próprios dados —, indicando o comportamento do mercado no último dia, seguido por um caractere de retrocesso (backspace). Isso fazia com que a torre central de Bordeaux apagasse esse suposto erro no momento da transcrição, deixando a mensagem original limpa. Esse truque não teria funcionado se tentassem executá-lo a partir de Paris porque, em Tours, o caractere-chave teria desaparecido no meio do processo durante a transcrição.
Portanto, os Blanc também precisavam dar um jeito de levar a informação de que necessitavam de Paris até a torre de Tours sem levantar suspeitas. Supostamente, recorreram ao envio de encomendas com itens pequenos, como meias ou gravatas. Isso acontecia toda vez que um comparsa em Paris percebia oscilações expressivas, de determinada magnitude, no mercado de títulos. Por meio das características do pacote e dos objetos, o operador conseguia decodificar a mensagem sobre o movimento do mercado. Ele podia, então, despachá-la pela linha telegráfica Tours-Bordeaux para uma transmissão rápida. Por fim, outro cúmplice, um ex-operador de telégrafo, era quem «observava com um telescópio a torre telegráfica nos arredores de Bordeaux e depois repassava as novidades aos Blanc».
Tudo indica que mais de 100 mensagens foram transmitidas aos astutos irmãos Blanc até 1836. Contudo, naquele ano tudo veio à tona, mas não por terem levantado suspeitas com os lucros obtidos ou com as encomendas enviadas. O que houve foi que o operador de Tours adoeceu e revelou tudo a um amigo, acreditando erroneamente que ele pudesse ser seu substituto. E, embora os irmãos Blanc tenham sido levados a julgamento mais tarde, curiosamente não puderam ser condenados porque não existia nenhuma lei contra o uso indevido de redes de informação. Afinal, ao contrário do que ocorreria hoje, saíram ilesos daquele que podemos classificar como o primeiro ciberataque da história.
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Tags:
cibersegurança
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