Opiniões
O melhor da 8.8 Matrix

Head of Research
Atualizado
21 de jan. de 2026
6 min
O que é a 8.8?
Parece uma pergunta simples. Eu poderia dar a resposta rápida: a conferência técnica de cibersegurança mais importante do Chile, com 15 anos de história, mais de 500 palestrantes e presença em todo o continente.
Mas isso seria como descrever a Matrix dizendo que é um programa de computador: tecnicamente correto, mas completamente insuficiente.
A 8.8 é aquele momento em que você olha ao redor e percebe que não está sozinho. Que existem outras pessoas que sentem aquela dissonância, aquela sensação persistente de que o mundo digital que nos vendem não é o mundo digital que realmente existe, que cada aplicativo, cada sistema, cada "solução segura" tem brechas que só alguns conseguem enxergar.
E uma vez que você vê, não dá mais pra deixar de ver.
Agora você tem duas opções:

Pílula vermelha
Bem-vindo à 8.8 Matrix.
A origem
Toda revolução nasce de um ponto de ruptura, e esta aconteceu em 27 de fevereiro de 2010, no Chile. Um terremoto de magnitude 8.8 sacudiu o país, deixando destruição, caos e uma certeza incômoda: o inesperado pode acontecer a qualquer momento, sem aviso e sem piedade
Um ano depois, três pessoas que entenderam que o mundo digital enfrenta a mesma realidade — Gabriel Bergel, Héctor Escalona e Mike Price — fundaram a 8.8 Computer Security Conference. O nome não foi coincidência, mas uma analogia sobre como os ciberataques podem ser inesperados e devastadores. E a única defesa é se preparar antes, não depois.
A primeira edição da 8.8 aconteceu no Teatro Normandie em Santiago do Chile, em 18 de novembro de 2011. Sem patrocinadores, nenhum ingresso vendido dois meses antes do evento, mas no final, reuniu 12 palestrantes e 400 participantes. Ali nasceu o movimento, a comunidade e o sentimento que levou Gabriel e toda a equipe da 8.8 a continuar por anos:
“[...] lo más importante y lo que nos convenció de seguir fue el agradecimiento de la comunidad, la gente nos abrazaba al salir de la conferencia y nos preguntaba cuál era la fecha del próximo año y ahí nos dimos cuenta que no teníamos opción más que seguir.”
["[...] o mais importante, e o que nos convenceu a continuar, foi a gratidão da comunidade. As pessoas nos abraçavam na saída da conferência e perguntavam a data para o próximo ano. Foi aí que percebemos que não tínhamos outra opção senão continuar."]
— Gabriel Bergel
Quinze anos depois, essa semente se transformou em algo que nenhum deles poderia ter imaginado.
A expansão
O que começou em Santiago cresceu além do país e inclusive além do continente:
2016: Bolívia. A primeira expansão internacional. Também foi o ano em que surgiram novos formatos, como a 8.8 Junior para as novas gerações e a 8.8 FFAA para as forças armadas e o governo.
2017: Peru e Uruguai. Lançado junto com a criação da 8.8 Solidaria, uma conferência de cibersegurança que apoia simultaneamente organizações sem fins lucrativos.
2018: México.
2019: 8.8 Regiones. Uma expansão local para Iquique, Valparaíso e Concepción, províncias do Chile.
2020: O ano em que tudo parou... exceto a 8.8. Expandiu para o Brasil e os Estados Unidos, e a 8.8 Andina surgiu como a união de Peru e Bolívia. As conferências regionais se tornaram 8.8 Regiones Norte, Centro, e Sur. E nasceu 8.8 Lovelace, celebrando as mulheres na cibersegurança.
2024: Equador. Além do lançamento do podcast "Réplica".
2025: 8.8 Academy e Fundación de Ciberseguridad 8.8 foram criadas.
Hoje, a 8.8 já organizou mais de 90 eventos, com um público acumulado de mais de 27 mil pessoas e os conhecimentos de mais de 500 palestrantes.
A cultura: O que não está na programação
Algumas coisas que definem a 8.8 não aparecem no site oficial:
A cerveja: Grátis desde a primeira edição. Os até 600 litros de cerveja para todos os participantes não são apenas um detalhe, são uma maneira de dizer: "Isso aqui é uma comunidade que vem pra conversar, debater e compartilhar o que sabe."
As camisetas: Incluídas no ingresso. Todo ano tem un design novo e único, colecionável e alinhado com o tema da conferência.
Os Dots: Voluntários que fazem tudo funcionar. Simples assim — sem eles, não tem conferência. São a espinha dorsal de toda a operação.
Os temas: Cada edição tem uma identidade visual e narrativa baseada na cultura pop. É uma forma de dizer: "Fazemos mais do que hacking; amamos filmes, videogames e, claro, referências."
Em 2025, o tema não poderia ter sido mais perfeito do que a Matrix.
8.8 Matrix
1999 é o ano em que um filme mudou para sempre a forma como o mundo enxerga os hackers. Matrix se tornou parte da cultura e identidade da comunidade hacker, e o motivo pelo qual várias gerações viram um terminal pela primeira vez e pensaram: "Eu quero fazer isso."
Na sua décima quinta edição, a 8.8 escolheu justamente esse tema e o aplicou em todas as suas conferências de 2025, porque como os organizadores citam: "A Matrix está em toda parte."
Especificamente no Chile, o evento principal teve dois dias de palestras na quinta-feira, 2 de outubro, e sexta-feira, 3 de outubro, no Centro Cultural CA660 em Santiago, como um novo espaço que recebeu a conferência e seus mais de 800 participantes.
O acesso à simulação tinha diferentes níveis. Ingressos antecipados a 38 dólares para os mais rápidos, segundo lote antecipado a 44 dólares como outra chance, entrada geral a 55 dólares incluindo a camiseta oficial do evento, e para quem queria a experiência completa, o passe VIP a 220 dólares, que oferecia meet & greet com palestrantes, kit de brindes com moletom e café da manhã privado.
Havia uma única trilha principal, sem distrações ou ter que escolher entre palestras paralelas. Quando alguém falava na 8.8 Matrix, todo mundo ouvia.
Foi assim que 15 palestrantes de 9 nacionalidades diferentes comandaram o evento. Todos eram de altíssimo nível, 87% eram internacionais e 53% das palestras foram em inglês.
As palestras: Encontrando Os Escolhidos
Assim como Morfeu encontrou "O Escolhido" na Matrix, a 8.8 encontrou "Os Escolhidos" para 2025: seus palestrantes. Estas foram algumas das palestras que marcaram esta edição:
"Cyberfascism: What Does It Look Like And How Do We Stop It?" — Eva Galperin, EFF
A keynote de abertura não foi técnica, mas foi um choque de realidade. Eva Galperin, Diretora de Cibersegurança da Electronic Frontier Foundation, veio nos lembrar que a tecnologia não é neutra. Da IBM colaborando com o Reich em 1937 à vigilância em massa moderna, o fascismo não desapareceu — se digitalizou. Não foi uma palestra confortável. As melhores raramente são.
"Know the Adversary: Enhancing Online Safety for Children Through an Offender Behavioral Framework" — Pamela Petterchak, MITRE
O silêncio na sala era diferente do normal — mais denso. Pamela apresentou o CAMM (Cybercrimes Against Minors Matrix), aplicando a mesma metodologia de TTPs que usamos contra APTs, mas para mapear e prever o comportamento de predadores online. Se conseguimos antecipar o Lazarus, por que não aqueles que atacam crianças? Nem tudo na cibersegurança é técnico; às vezes é profundamente humano.
"Analizando el Ecosistema de los InfoStealers en LATAM" — Joseliyo Sánchez, VirusTotal (Google)
Com vinte e um anos do VirusTotal coletando malware como respaldo, Joseliyo analisa a epidemia silenciosa da nossa região. Lumma C, Agent Tesla, RedLine, são nomes que provavelmente já têm credenciais de alguém que você conhece na Colômbia, México, Chile ou El Salvador: o território de caça deles. Na sua palestra, Jose entregou o mapa completo do ecossistema criminal latino-americano — um mais sofisticado do que gostaríamos de admitir.
"Cybersecurity Challenges Across Borders: Insights from the Other Side of the Globe" — Dmitry Galov, Kaspersky GReAT
O que está no radar da Rússia que pode não estar no nosso? Dmitry trouxe a perspectiva global: o caso do XZ Utils que quase comprometeu metade da internet, APTs como Revenge Hotels mirando países de língua espanhola, a técnica Ghost TAP para roubar cartões NFC e menções de ferramentas black-hat com IA ativas na LATAM, como Xanthorox AI. Sabemos que as ameaças não respeitam fronteiras; nossas defesas também não deveriam.
Side quests
É claro que uma conferência não é só o que acontece no palco. É também o que rola nos corredores e cantos, todas as atividades paralelas que transformam participantes passivos em participantes ativos. E a 8.8 Matrix sabia bem disso.
A conferência teve um Capture The Flag exclusivo durante os dois dias de evento, com prêmios para os três primeiros colocados.
Também teve o MELI Live Hacking Event: um evento de bug bounty organizado pela equipe do Mercado Livre, aberto de 25 de setembro a 3 de outubro, com escopos estendidos, bounties especiais e leaderboard ao vivo.
E finalmente, o Sound of Cyber fez uma aparição: uma experiência sensorial única que permitiu visualizar ataques a um honeypot em tempo real e experienciá-los através dos sentidos. Uma experiência trazida de conferências como a Black Hat direto para a América Latina.
O movimento continua
A 8.8 Matrix acabou, mas o movimento não para, ele continua em 1 e 2 de outubro de 2026, no Chile.
Não sabemos qual será o tema, quem serão os palestrantes, quais ameaças terão surgido até lá, ou quais novos vetores de ataque vão nos obrigar a repensar tudo.
Mas sabemos de uma coisa: enquanto houver pessoas que continuem escolhendo a pílula vermelha, a 8.8 vai continuar tendo réplicas.
Nos vemos em outubro.
Knock, knock.
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